O ano era 1978. O inverno havia acabado, a terra secado e as batatas estavam prontas para serem colhidas. Funcionava pela primeira vez no sítio Bom Jardim, o engenho de farinha do seu José Alves de Freitas. Estruturado com dificuldades, dada as condições financeiras da família, o engenho trazia em seus equipamentos uma inovadora técnica para enxugar a massa da mandioca: a Prensa de Caixão.
A Prensa de Caixão permitia diminuição da mão-de-obra, facilidade de manejo e maior produtividade do que o método utilizado anteriormente: a Prensa de Chiqueiro, que utilizava varas e palha de carnaúba, tornou-se uma técnica obsoleta, tendo em vista, a necessidade de maior agilidade e produção de farinha nos engenhos. Ao invés de varas e palha para segurar a massa enquanto essa era prensada, o novo equipamento possuía um caixão que armazenava a massa úmida.
Durante 24 anos, essa prensa produziu massa compactada e seca para depois ser manejada nos fornos de torrar farinha. Desativado em 2002 pelas precárias condições físicas da casa, o engenho de farinha do seu José Alves de Freitas tornou-se de ‘fogo morto’.
Essa peça encontrada em meio aos destroços da antiga casa de farinha foi resgatada em péssimo estado físico no final de 2008, pelo marceneiro Antonio Alves Dias. Seu Antonio reformou-a utilizando as mesmas madeiras que compunham a peça original: aroeira, angico e pau-d’arco. A restauração desse artefato de quase 3m de altura, 2m de largura e mais ou menos meia tonelada, demandou esforço físico, conhecimento tecnológico de funcionamento e conversas com seu antigo dono.
Hoje, transformado num banco para repouso, nos transmite certa ironia. Isso decorre do fato desse objeto não só representar um legado histórico de nossa cultura e sobre a produção e economia de nossas terras e homens, mas um exemplar ímpar de uma tecnologia própria de seu tempo que uniu força e trabalho para a produção de um alimento básico de nossa mesa de todo dia, a farinha de mandioca!
Thiago A. Dias
Historiador
Portalegre, outubro de 2011.
